A história da ciência brasileira guarda um capítulo que foi esquecido: a vida de Roberto Landell de Moura (1861-1928), o padre cientista que desafiou as fronteiras da física no final do século XIX.

A trajetória do Padre Landell é muito inspiradora.
Homem de fé resiliente e dotado de conhecimentos científicos invejáveis — ele foi um verdadeiro gênio em sua época.
Essa postagem foi escrita a partir de pesquisas em fontes primárias como o IHGRGS – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, o Memorial Landell de Moura (de Itu, SP) e do livro “Padre Landell – o brasileiro que inventou o wireless“, do jornalista e escritor brasileiro Hamilton de Almeida, o qual pode ser adquirido em diversas livrarias da internet.
Como apreciador de livros, recomendo, para quem tiver interesse e puder, adquirir nas livrarias o livro físico — e lê-lo, obviamente.
Uma trajetória entre a fé e a ciência
Nascido em Porto Alegre, Landell de Moura demonstrou talento precoce para as comunicações, construindo seu próprio telefone em 1877, apenas um ano após Graham Bell.
Sua formação foi sólida e internacional: estudou Humanidades no Colégio Jesuíta em São Leopoldo antes de seguir para Roma, onde cursou Teologia na Universidade Gregoriana.
Foi na capital italiana que ele também mergulhou nos estudos de Física e Química, adquirindo o embasamento necessário para suas futuras criações.
Ordenado padre em 1886, Landell conciliou suas obrigações eclesiásticas em diversas paróquias do Rio Grande do Sul e de São Paulo (nas cidades de Santos, Campinas e na Capital, no bairro de Santana) com experimentos científicos avançados realizados em laboratórios improvisados em suas igrejas.
O nascimento do rádio e o pioneirismo da voz
Diferente de seus contemporâneos, como Guglielmo Marconi — que focava na telegrafia sem fio (transmissão de códigos) —, o Padre Landell foi o precursor da radiotelefonia.
Em 16 de julho de 1899, ocorreu a primeira demonstração pública de telefonia sem fio para transmissão de voz humana (e até sons musicais), realizada na cidade de São Paulo (Brasil).
Os equipamentos utilizados foram construídos pelo próprio padre Landell.
A demonstração foi cuidadosamente planejada — e coberta pela imprensa de dois estados.
Naquela manhã do dia 16 de julho de 1899, uma fria e nublada manhã de inverno paulistano, pelo menos quatro grandes jornais já haviam anunciado o evento: O Estado de S. Paulo e o Correio Paulistano, de São Paulo, e o Jornal do Commercio e A Imprensa, do Rio de Janeiro.
O experimento ocorreu no Colégio das Irmãs de São José (atual colégio Santana), no bairro de mesmo nome — Santana, na Zona Norte da capital paulista.
Por uma das longas janelas verticais do andar superior do edifício — que existe até hoje, ao lado da capela —, o Padre Landell instalou seu dispositivo.
Na outra ponta, a cerca de 3,8 km em linha reta, na antiga Ponte Grande — hoje conhecida como Ponte das Bandeiras —, sobre o Rio Tietê, o padre havia determinado a instalação do segundo transmissor/receptor.
Possivelmente, um gramofone operado manualmente foi levado até a Ponte Grande para reproduzir o som no ponto de chegada.
A cerimônia contou com presenças ilustres: Antônio Francisco de Paula Souza (1843–1917), diretor e fundador da Escola Politécnica de São Paulo — hoje integrada à USP —, engenheiros, advogados, empresários, representantes da Companhia Telefônica e jornalistas de O Estado de S. Paulo e do Correio Paulistano.
Um mensageiro percorreu o trajeto entre os dois pontos e deu o sinal de início: “O pessoal já está ciente.”
Foi então que o padre-cientista enviou sua voz ao ar.

“Toquem o Hino Nacional”, disse então o Reverendíssimo pelo tubo. E o Hino Nacional foi ouvido.
No dia seguinte, o Jornal do Brasil (RJ) registrou com precisão: “Os experimentos com o telefone sem fio do Padre Landell foram bem-sucedidos e alcançaram 3.800 metros.”
A cobertura foi ampla: no dia seguinte, além do Jornal do Brasil, outros jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo noticiaram o feito.
O que o público presente talvez não tivesse compreendido completamente naquele momento — e o que um cronista da época chegou a minimizar, comparando o invento ao telégrafo sem fio de Marconi — era que o processo de Landell era fundamentalmente diferente: enquanto Marconi transmitia sinais em código, Landell havia transmitido a voz humana e sons musicais por ondas de rádio.
Era uma novidade absoluta no mundo.
Segundo o professor Luiz Artur Ferraretto, da UFRGS, “o Padre Landell estava próximo do que viria a ser chamado de broadcasting mais de uma década depois” — a transmissão de sons e imagens por ondas eletromagnéticas que hoje conhecemos como rádio e televisão.
O que veio antes de 1899: a missa transmitida e o laboratório destruído
A transmissão de julho de 1899 não veio do nada.
Há evidências — algumas documentadas, outras preservadas na memória institucional da Igreja — de que o Padre Landell já realizava experimentos com transmissão sem fio entre 1894 e 1896, quando era vigário em Campinas.
O Monsenhor Geraldo Azevedo, que exerceu funções no Mosteiro do Carmo de 1963 a 2000, relatou um feito que, se confirmado, reescreveria a história das telecomunicações:
“O Padre Landell construiu dois dispositivos — um transmissor e um receptor — que lhe permitiram celebrar uma missa em Campinas e transmiti-la simultaneamente aos fiéis de uma igreja em Jundiaí.”
A distância entre as duas cidades: aproximadamente 35 km em linha reta.
Antes do início da transmissão, Landell enviava sinais sonoros que ativavam a iluminação da cruz na capela de Jundiaí — avisando os católicos que a missa virtual estava prestes a começar.
“A história do Landell está registrada em documentos na Igreja do Carmo”, acrescentou o monsenhor.
Se a transmissão ocorreu como descrita, o Padre Landell teria realizado a primeira transmissão de voz humana sem fio de longa distância da história anos antes da demonstração pública de 1899.
O laboratório destruído — e o que a história oficial não conta
Foi exatamente nesse período — entre 1895 e 1897 — que o laboratório de Landell em Campinas foi invadido e destruído.
A versão popular diz que fanáticos religiosos o acusaram de feitiçaria.
A realidade documentada é mais complexa — e mais perturbadora.
Após uma transmissão bem-sucedida em que Landell havia falado “com pessoas que estavam a quilômetros de distância”, um grupo invadiu seu laboratório e destruiu todos os seus dispositivos, ferramentas e anotações de estudo.
Uma testemunha revelou posteriormente algo que mudou o entendimento do episódio:
“Foi surpreendente ver apenas algumas pessoas participando da invasão, e a maioria delas era estranha à vida cotidiana da igreja. Percebeu-se então que o convite confidencial feito nos dias anteriores em nome de um grupo de paroquianos descontentes não combinava com as pessoas presentes e com a agressão destrutiva praticada contra o laboratório.”

Em outras palavras: a invasão pode não ter sido um ato espontâneo de fanatismo religioso — mas algo orquestrado.
O contexto político fornece uma pista: na mesma época, o clero de Campinas havia se recusado a celebrar uma missa para um influente maçom local — gerando tensão entre a Igreja e grupos de poder da cidade. Landell estava no centro dessa disputa.
Nunca se soube quem liderou a invasão.
O que se sabe é o prejuízo: parte dos registros dos experimentos anteriores a 1899 foi destruída naquele dia — o que explica, em parte, por que a comunidade científica internacional questionou durante décadas a documentação das realizações mais precoces de Landell.
A destruição do laboratório não foi apenas vandalismo.
Foi o apagamento deliberado de parte da história das telecomunicações.
A visão que antecedeu o futuro
A amplitude da visão de Landell ia muito além do que qualquer contemporâneo ousava imaginar — e começou mais cedo do que se supõe.
Entre 1894 e 1896 — 75 anos antes de Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisarem na Lua —, o padre já admitia a possibilidade de intercomunicação além dos limites da Terra:
“Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distância que nos separa desses outros mundos que rolam sobre nossa cabeça, ou sob nossos pés, e eu farei chegar minha voz até lá.”
Em 1902, quando questionado sobre o alcance das transmissões sem fio, não hesitou:
“Praticamente infinito.”
A declaração foi feita ao New York Herald — enquanto Marconi, já famoso mundialmente pela radiotelegrafia, afirmava ao The Evening World (janeiro de 1903) que a tecnologia de voz serviria apenas para “pequenas distâncias” e não acreditava em seu aperfeiçoamento.
Décadas depois, quando o rádio já se expandia pelo mundo nos anos 1920, Landell fez uma declaração que resume com precisão técnica e humildade religiosa o que havia realizado:
“De fato, Deus usou minha humilde pessoa para levantar um pouco o véu que esconde os segredos da natureza, pois o sistema de radiotelefonia atualmente em uso é baseado no princípio de superposição de movimentos de ondas elétricas e na aplicação de uma lâmpada similar ao tubo de Crookes com três eletrodos, mas ligeiramente modificada, que transmite e recebe mensagens telefônicas e telegráficas sem fio condutor. Esses dois aspectos principais foram descobertos pela primeira vez pelo Padre Landell de Moura.”

Não era vaidade — era registro histórico.
A linha que vai da transmissão de 1899 ao celular no seu bolso passa por aqui.
Ao fazer a primeira transmissão de voz e sons musicais por ondas de rádio na história da humanidade, o Padre Landell abriu a porta que levaria à criação de todas as invenções sem fio da sociedade moderna — do rádio à televisão, do satélite ao smartphone.
As contribuições técnicas: ondas, triodo e fibra óptica
Para além da transmissão histórica de 1899, o legado técnico do Padre Landell vai muito além do que o senso comum imagina.
O engenheiro Edson Benedicto Ramos Féris, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da antiga Telebrás (CPqD) e professor da Escola Politécnica da USP, examinou as patentes de Landell e chegou a conclusões que redefinem o alcance de suas contribuições:
As ondas contínuas — e por que isso muda tudo
Os sistemas de Marconi usavam ondas hertzianas amortecidas — sinais que diminuíam gradualmente em intensidade, como os círculos que se formam e se dissipam quando uma pedra cai na água.
Landell foi além.
Seus dispositivos geravam ondas contínuas e uniformes — que seus contemporâneos chamaram de “ondas Landell” — cujos valores permaneciam constantes entre as estações transmissora e receptora, formando um campo de ondas permanente e uniforme.
Um jornal gaúcho descreveu o fenômeno com precisão em 1924:
“As ondas Landell diferem muito das que são mais ou menos amortecidas. As ondas Landell não estão sujeitas a tais transformações e são produzidas por movimentos vibratórios elétricos, cujos valores de onda são contínuos e sempre permanecem os mesmos.”
Este tipo de onda — contínua e estável — é exatamente o que veio a dominar completamente os meios de transmissão de rádio no século XX.

O triodo — antes de Lee de Forest
O engenheiro Féris concluiu que Landell “criou uma lâmpada de três eletrodos baseada no tubo de Crookes” — colocando o terceiro eletrodo na forma de filamentos metálicos, o que caracteriza funcionalmente a grade do triodo.
O triodo é oficialmente atribuído ao americano Lee de Forest, em 1907.
O trabalho de Landell precedeu essa data — usando o mesmo princípio fundamental que De Forest patentearia anos depois e que se tornaria peça central do desenvolvimento do rádio moderno.
A fibra óptica — o mesmo princípio, um século antes
A análise do engenheiro Féris revelou ainda uma conexão surpreendente com a tecnologia do século XXI:
“Nessas invenções, o Padre Landell transmitia sinais de variações em intensidade de luz. Esse tipo de comunicação renasceu com a transmissão de variações de luz via fibras ópticas. Na época do inventor, era um arco de tensão com intensidade luminosa variada; hoje, é um laser semicondutor cuja emissão de raios infravermelhos é modulada por informação. O princípio, porém, é o mesmo.”
Em outras palavras: quando você usa internet por fibra óptica hoje, está usando — sem saber — um princípio descoberto por um padre gaúcho no final do século XIX, em um laboratório improvisado dentro de uma igreja em São Paulo.
A televisão — e o “verbo mental”
Baseado no mesmo campo de ondas contínuas, Landell foi além da transmissão de voz e música.
Ele vislumbrou a transmissão de imagens sem fio a longas distâncias — o que o texto de 1924 descreve como “o princípio da televisão que agora está sendo testado”.
E foi mais longe ainda: descreveu a possibilidade de transmitir as vibrações correspondentes ao “logos — o verbo mental” — a ideia de que, no limite, o próprio pensamento poderia ser transmitido sem fio.
Era misticismo? Era ciência? Era as duas coisas — na mente de um padre-cientista que vivia décadas à frente do seu tempo.

Invenções e Patentes
Buscando proteção legal para seus inventos, Landell de Moura obteve patentes cruciais:
- Telefone: Construído em 1877, quando ele tinha apenas 16 anos, apenas um ano após a invenção de Graham Bell.
- Transmissão de Rádio (Voz e Música): Realizou a primeira transmissão de voz humana e sons musicais por ondas de rádio da história em 16 de julho de 1899, na cidade de São Paulo.
- Patentes no Brasil: Registrou patentes de seus inventos em 1901.
- Televisão: Começou a projetar a televisão entre 1901 e 1904, durante o período em que morou em Nova York.
- Ondas Curtas: Recomendou o emprego de ondas curtas para aumentar a distância das transmissões entre 1901 e 1904, algo que ainda não era cogitado por outros cientistas na época.
- Patentes nos Estados Unidos: Em 1904, obteve o reconhecimento oficial para três inventos específicos:
- Wave Transmitter (Transmissor de Ondas).
- Wireless Telephone (Telefone sem fio).
- Wireless Telegraph (Telégrafo sem fio).
Abaixo, fotos das 3 patentes do mencionadas — obtidas através do site Wikimedia Commons:



As patentes que inspiraram o século XX e o Telephotorama
O legado técnico das três patentes americanas de Landell não se encerrou em 1904.
Nas décadas seguintes, suas invenções continuaram a inspirar outros inventores — e foram citadas formalmente em patentes registradas nos Estados Unidos por mais de meio século:
- 1947 — Clarence W. Hansell (RCA) cita o Wireless Telegraph ao patentear uma antena para sistemas de radar
- 1948 — Paul N. Bossart (Union Switch & Signal Co) cita o Wave Transmitter
- 1949 — William S. Halstead (Farnsworth Research Corp.) cita o Wave Transmitter e o Wireless Telephone
- 1952 — Thurlow M. Gordon Jr. cita o Wave Transmitter
- 1993 — Mitsubishi cita o Wave Transmitter
- 2013 — Philips cita o Wave Transmitter ao patentear um sistema de modulação de luz para iluminação avançada
Como explicou o engenheiro Fabio Serra Flosi: “É como escrever um artigo científico. As pessoas usam artigos existentes sobre o assunto como base para criar algo mais atualizado, avançado e sofisticado.”
O reconhecimento que veio de onde menos se esperava
Em 2012, o inventor americano David Edward Emmons, ao registrar uma patente de suporte para dispositivos eletrônicos, escreveu espontaneamente na seção de antecedentes técnicos:
“A comercialização relativamente recente do telefone celular tende a invocar a noção de que a comunicação sem fio é uma tecnologia recente. No entanto, foi um padre católico romano brasileiro e inventor, o Padre Roberto Landell de Moura, quem demonstrou publicamente pela primeira vez uma transmissão de rádio da voz humana.”
Um inventor americano, numa patente registrada nos EUA em 2012, reconhecendo espontaneamente o pioneirismo de um padre brasileiro.
Sem pressão. Sem reivindicação. Apenas o registro histórico correto.
O Wave Transmitter e o AM: o rádio como o conhecemos
O engenheiro Fabio Serra Flosi, especialista em telecomunicações, analisou as patentes e chegou a uma conclusão que conecta Landell ao rádio moderno de forma direta:
“O interruptor fonético não é nada mais do que um microfone. Os componentes associados a este interruptor constituem o que atualmente chamamos de modulador de amplitude. O resultado é a modulação de amplitude — ou AM — o processo de transmissão de voz ou outros sons por longas distâncias, sem o uso de fios.”
O rádio AM — que ainda hoje é transmitido em ondas médias em todo o mundo — tem sua origem nos princípios desenvolvidos por Landell em seu laboratório improvisado dentro de uma igreja em São Paulo.
As réplicas que provaram o que a história duvidou
Se alguma dúvida restava sobre a funcionalidade real dos dispositivos do Padre Landell, dois experimentos históricos a dissiparam definitivamente.
A demonstração de 1984 — 80 anos depois

No centenário da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1984, uma réplica do Wave Transmitter foi apresentada publicamente em Porto Alegre, diante do Monumento aos Expedicionários.
O governador do Rio Grande do Sul, Jair Soares, falou ao telefone sem fio.
Suas palavras foram ouvidas claramente por centenas de pessoas presentes:
“Porto Alegre.”
Oitenta anos após a concessão das patentes americanas, o dispositivo inventado por um padre gaúcho funcionava exatamente como ele havia descrito.
A equipe técnica do extinto Cientec (Centro de Inovação, Tecnologia e Pesquisa do Rio Grande do Sul) que construiu a réplica enfrentou desafios significativos: as especificações técnicas originais eram incompletas, não mencionavam escala, e foi necessário consultar livros de física da época do padre para estimar as características dos componentes. Mesmo assim, o dispositivo funcionou.
O engenheiro responsável observou que o uso diário durante a fase de testes levou ao desenvolvimento de um padrão de operação eficiente — e que “o dispositivo requer operadores treinados e habituados às suas peculiaridades”.
A confirmação de 2004 — no centenário das patentes americanas
Vinte anos depois, no centenário exato das patentes americanas, Marco Aurélio Cardoso Moura, funcionário da Caixa Econômica Federal, construiu uma segunda réplica do Wave Transmitter em Porto Alegre.
Após dois anos de pesquisa, dedicação e “enormes dificuldades” pela escassez de dados sobre dimensões e tipos de materiais, Marco Aurélio chegou à mesma conclusão:
A réplica funciona.
Em 23 de maio de 2004, os testes foram acompanhados pelos radioamadores Flávio Walker da Silva e Ivan Dorneles Rodrigues.
O dado mais revelador de todos
Os testes com ambas as réplicas revelaram algo que vai além da simples confirmação histórica: o Wave Transmitter de Landell transmitia em frequências AM e FM — os dois sistemas de modulação que viriam a dominar o rádio comercial do século XX.
AM e FM. Em 1904. Em São Paulo.
E não estava sozinho nessa visão: Nikola Tesla e Reginald Fessenden — duas das maiores autoridades da história das telecomunicações — também rejeitavam as ondas amortecidas usadas por Marconi e previam que o futuro do rádio estava nas ondas contínuas.
Landell havia chegado à mesma conclusão de forma independente.
E havia chegado primeiro.
O Telephotorama: a televisão antes da televisão
Em 20 de agosto de 1904, enquanto ainda estava em Nova York finalizando suas patentes de rádio, o Padre Landell projetou algo ainda mais ambicioso.
Nos seus cadernos, ele intitulou o projeto: “O Telephotorama ou Visão à Distância”.
Era um sistema de transmissão e recepção de imagens à distância — usando um semicondutor fotossensível de selênio e um disco mecânico de varredura.
Em outras palavras: televisão.
A equipe de engenheiros do CPqD da antiga Telebrás que analisou os esboços décadas depois concluiu:
“Podemos provar, sem dúvida, que pelo menos seu trabalho é um precursor da televisão, pois ele já havia resolvido alguns problemas de comunicação de vídeo, conforme evidenciado pelos poucos documentos preservados até hoje.”
A televisão “oficial” só seria demonstrada publicamente pelo escocês John Logie Baird em 1926 — e um sistema eletrônico prático chegaria em 1929.
Os esboços de Landell são de 1904.
Vinte e dois anos antes.
Em um caderno, noutra data, Landell listou o que precisava para continuar o projeto: materiais técnicos, e então quatro palavras que resumem o que lhe faltou durante toda a sua trajetória:
“Paz, tempo, dinheiro e oportunidade.”
Não tinha nenhuma das quatro.

O Brasil que deixou escapar seu maior inventor
Em 25 de novembro de 1904, com suas três patentes americanas garantidas, o Padre Landell embarcou em um navio rumo ao Rio de Janeiro.
Ele planejava ficar apenas três meses no Brasil e retornar a Nova York para comercializar suas invenções.
Não voltaria jamais.
Vinte anos depois, ele descreveu o que aconteceu com uma resignação que dói:
“Quando voltei dos Estados Unidos, pensei que ficaria apenas três meses em minha pátria e retornaria a Nova York para continuar meus estudos. Mas o homem propõe e Deus dispõe. Por razões totalmente além do meu controle, não pude retornar. Tive que permanecer no Brasil e fui também forçado a abandonar meus estudos experimentais e os meios necessários para eles.”
E encerrou com uma palavra que resume décadas de frustração:
“Paciência.”
A oportunidade perdida — e a ironia que ainda dói
De volta ao Brasil, Landell tentou uma última vez.
Escreveu ao Presidente da República Rodrigues Alves pedindo dois navios de guerra para demonstrar seus inventos em alto mar — provando que suas transmissões funcionavam a longas distâncias e poderiam ter aplicação militar imediata.
Um funcionário do governo entrou em contato pessoalmente.
Entusiasmado, Landell disse que queria a maior distância possível entre os navios — porque no futuro, afirmou, “suas invenções serão usadas até para comunicações interplanetárias”.
A resposta chegou por telegrama: não era possível atender prontamente. Que aguardasse uma oportunidade.
A oportunidade nunca surgiu.
O que o governo escolheu no lugar de Landell
Enquanto ignorava o padre inventor, o governo brasileiro instalava nas embarcações da Marinha o sistema Telefunken — tecnologia alemã baseada em ondas hertzianas amortecidas, tecnicamente inferior às ondas contínuas que Landell havia desenvolvido.
Em 1º de março de 1905, o Brasil celebrou como sua primeira transmissão sem fio oficial um radiograma enviado de um navio — usando tecnologia estrangeira.
Dois anos antes, Landell havia oferecido ao país a mesma capacidade — com tecnologia brasileira, patenteada nos Estados Unidos, e tecnicamente superior.
O Jornal do Commercio do Rio de Janeiro registrou em 11 de março de 1905 que o sistema de Landell era fundamentalmente diferente e superior ao fotofone de Bell — porque modulava o feixe luminoso não apenas pela ação mecânica da voz, mas também por vibrações elétricas, tornando-o resistente a chuva, vento, neblina e outros fenômenos meteorológicos.
O Brasil tinha em mãos uma das maiores invenções da história das telecomunicações.
E deixou escapar.
O reconhecimento internacional
O pioneirismo do Padre Landell não é apenas uma reivindicação brasileira — é um fato reconhecido pelas principais instituições científicas e históricas do mundo.
The Encyclopedia of Radio — obra de referência definitiva da história do rádio, desenvolvida em parceria com o Museum of Broadcast Communications de Chicago e publicada simultaneamente nos Estados Unidos e no Reino Unido em 2004 — dedica três verbetes ao padre brasileiro: “Brazil”, “Early wireless” e “Roberto Landell de Moura”.
Em três volumes e 1.696 páginas com mais de 600 verbetes cobrindo toda a história do rádio, Landell está presente.
O reconhecimento mais técnico e definitivo veio em junho de 2012, no International Microwave Symposium, realizado em Montreal, Canadá.
No artigo “A Cursory Historical Overview on the Evolution of Wireless Communications“, apresentado por Magdalena Salazar-Palma, da Universidade Carlos III de Madrid, e Tapan K. Sarkar, da Universidade de Syracuse (EUA) — ambos membros do IEEE, o maior instituto técnico-profissional do mundo —, foi declarado formalmente:
“A primeira transmissão de voz humana por ondas eletromagnéticas moduladas por sinal de áudio foi realizada pelo Padre Landell.”
O IEEE — Institute of Electrical and Electronics Engineers — representa mais de 400.000 profissionais em mais de 160 países e é a organização que define os padrões técnicos globais para engenharia elétrica e eletrônica.
Quando o IEEE diz que Landell foi o primeiro, não é uma opinião — é um veredito técnico.

Reflexão sobre a história do pai do rádio
Apesar de sua genialidade, Landell enfrentou o obscurantismo.
Conforme vimos parágrafos atrás, seus aparelhos chegaram a ser destruídos no Brasil por pessoas que o acusavam de bruxaria ou feitiçaria — ou usaram essa acusação inverídica como pretexto falso para encobrir os reais motivos que as levaram a destruir equipamentos e registros valiosos.
O Padre Landell é hoje considerado o pai do rádio, pois embora Marconi tenha patenteado o telégrafo sem fio (sinais em código) primeiro, foi Landell quem comprovadamente transmitiu a voz humana wireless antes de qualquer outro cientista.
Além disso, conforme demonstrado, o Padre Landell foi o precursor de ideias e embasamento científico-tecnológico que possibilitou o desenvolvimento de outros aparelhos de telecomunicação.
Incompreendido em sua época e sem o apoio governamental necessário para a exploração industrial, ele viu o mundo creditar a outros o que ele havia sonhado e realizado solitariamente.
Mesmo assim, é de se admirar a resiliência do Padre que, em determinados momentos, literalmente lutava contra tudo e contra todos para poder continuar desenvolvendo suas ideias científicas.
Eu acredito que a fé religiosa do padre, por seu caráter espiritual e transcendental, foi fundamental para a perseverança de Landell em sua caminhada contra a maré de descaso e ignorância que o cercavam.
Sua biografia é um dos maiores exemplos de gênio não reconhecido e de injustiça histórica, seja no campo geral de grandes homens de nosso país, seja na história da tecnologia.
Não deixa de ser triste ver que o Padre Landell não teve, em vida, o devido reconhecimento de seu país.
E é muito frustrante, enquanto cidadão brasileiro, ver que o Brasil perdeu uma oportunidade de ouro de ser vanguardista na tecnologia.
Como eu vi um analista dizer certa vez: “O Brasil não perde a oportunidade de desperdiçar oportunidades”, ao comentar determinada situação e que nada tem a ver com o caso Landell.
Entretanto, o caso Landell é, infelizmente, um dos exemplos mais dolorosos dessa tendência histórica.
É inconsolável saber que, historicamente, nosso país não reconhece seus heróis, cometendo uma injustiça pessoal contra eles; e ao mesmo tempo desperdiça talentos que poderiam mudar nossa sorte enquanto sociedade.
É importante observar que o Padre Roberto Landell de Moura teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves no ano de 2012.
O reconhecimento é merecido, mas veio muito tarde — por todos os aspectos abordados nesta reflexão.
Cito uma frase do eminente Rui Barbosa, que cai muito bem ao caso: “justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta“.
Preservando a Memória
Para quem deseja mergulhar nos documentos originais e manuscritos deste gênio brasileiro, e conhecer mais sobre sua história, pode procurar as duas instituições abaixo:
1) O IHGRGS disponibiliza o Inventário do Acervo Padre Roberto Landell de Moura, lançado em 2012.
2) O Memorial Landell de Moura, um espaço cultural sediado em um casarão histórico no Centro de Itu, SP. O memorial centraliza provas históricas, cópias de patentes e oferece projetos educativos para a comunidade.
Visite o Memorial: Rua Floriano Peixoto, 160 – Centro, Itu (mediante agendamento). Contato: e-mail: srlandell@landelldemoura.org ou na página de contato do site do próprio Memorial. Ou ainda através do perfil no Instagram @memoriallandelldemoura.itu.
Artigos relacionados — você poderá gostar também destes:
