John Tawell: O Primeiro Criminoso Preso pelo Telégrafo na História

Homens operando o telégrafo de duas agulhas de Cooke-Wheatstone numa estação ferroviária do século XIX.
Homens operando o telégrafo de duas agulhas de Cooke-Wheatstone

Postagem atualizada em 02/07/2026.

No século XIX, o crime tinha uma vantagem física implacável: a velocidade.

Se um criminoso conseguisse subir em um cavalo ou entrar em um trem, ele estava, para todos os efeitos, desaparecido.

A informação não conseguia correr mais rápido que o homem.

Mas tudo isso mudou em uma noite de janeiro de 1845, em Londres, graças a uma máquina de agulhas magnéticas e um fio de cobre.

Esta é a história real do britânico John Tawell — o primeiro homem preso pelo telégrafo.

Ou, em outras palavras, o primeiro criminoso “por um fio”.

O crime no vilarejo

John Tawell (c. 1784–1845) era um homem de passado sombrio.

Cresceu em Londres, trabalhando em estabelecimentos comerciais ligados à comunidade Quaker — uma comunidade religiosa cristã conhecida pelo rigor moral.

Com o tempo, tornou-se ele próprio um membro da congregação.

Paradoxalmente, foi exatamente esse círculo de confiança que ele usaria para cometer seus crimes.

Em 1814, Tawell foi preso por falsificação de notas bancárias do Uxbridge Bank, um banco pertence a própria comunidade Quaker da qual John Taweel fazia parte.

Tal crime era passível de pena capital.

A sentença, porém, foi comutada por uma razão inusitada: o próprio banco Quaker lesado, por convicção religiosa contrária à pena de morte e preocupado com o escândalo, negociou para que Tawell se declarasse culpado de um crime menor.

O resultado foi o degredo de 14 anos na colônia penal britânica de Sydney, na Austrália.

Lá, após obter liberdade condicional por bom comportamento, Tawell abriu a primeira farmácia da colônia e prosperou financeiramente. Casou-se e teve filhos.

Em 1831, retornou à Inglaterra. Havia se tornado um homem rico e aparentemente respeitável.

Gravura história de John Tawell no dia de seu julgamento.
Gravura história de John Tawell no dia de seu julgamento. Autor desconhecido.

Porém, Mary, esposa de Tawell, adoeceu e morreu em 1838.

Tawell havia contratado Sarah Hart para cuidar de Mary e, após a morte dela, Tawell e Sarah iniciaram um relacionamento, do qual nasceram dois filhos.

Posteriormente, Sarah se mudou para uma cabana na região de Salt Hill, em Slough, no condado de Berkshire, que Tawell pagava, fora uma pensão semanal para as despesas.

Em 1841, Tawell casou-se novamente com uma respeitável viúva Quaker (da Sociedade dos Amigos), mas continuou seu relacionamento com Sarah Hart, de forma secreta agora.

Por volta de 1843, sua situação financeira começou a se deteriorar.

Tawell tomou uma decisão sombria: assassinar Sarah para ocultar o caso extraconjugal de sua nova esposa e aliviar seus encargos financeiros.

Em 1º de janeiro de 1845, Tawell entrou em uma farmácia e comprou dois frascos de Ácido Prússico de Scheele — um tratamento para varizes que continha cianeto de hidrogênio, um veneno mortal se ingerido.

Naquela tarde, sentado tranquilamente na casa de Sarah, ele envenenou a amante enquanto os dois compartilhavam uma cerveja.

Após o crime, Tawell caminhou até a estação de Slough e embarcou no trem das 19h42 com destino à estação de Paddington, em Londres.

Ele acreditava que, uma vez na metrópole, estaria invisível.

O que John Tawell não sabia era que o telégrafo de duas agulhas de Cooke e Wheatstone acabara de ser instalado naquela linha ferroviária.

O mensageiro elétrico

Uma vizinha ouviu os gritos de Sarah — que não morreu imediatamente — e acionou a polícia local.

Ao chegarem à casa, os policiais encontraram a vítima ainda agonizando.

Rapidamente identificaram que um homem com roupas escuras características de Quaker havia deixado o local pouco antes.

Após investigação sumária, descobriram que um homem com a descrição do suspeito havia comprado passagem de primeira classe para Londres no trem que partira às 19h42.

O mestre da estação de Slough, Sr. Howell, autorizou imediatamente o envio de uma mensagem pelo telégrafo para a estação de Paddington.

A mensagem histórica dizia:

“A MURDER HAS JUST BEEN COMMITTED AT SALT HILL AND THE SUSPECTED MURDERER WAS SEEN TO TAKE A FIRST CLASS TICKET TO LONDON BY THE TRAIN THAT LEFT SLOUGH AT 7.42PM. HE IS IN THE GARB OF A KWAKER WITH A BROWN GREAT COAT ON WHICH REACHES HIS FEET. HE IS IN THE LAST COMPARTMENT OF THE SECOND FIRST-CLASS CARRIAGE.”

Tradução:
“UM ASSASSINATO ACABA DE SER COMETIDO EM SALT HILL E O SUSPEITO FOI VISTO COMPRANDO UM BILHETE DE PRIMEIRA CLASSE PARA LONDRES NO TREM QUE PARTIU DE SLOUGH ÀS 19h42. ELE ESTÁ TRAJADO COMO UM KWAKER, COM UM SOBRETUDO MARROM QUE CHEGA ATÉ OS SEUS PÉS. ELE SE ENCONTRA NO ÚLTIMO COMPARTIMENTO DO SEGUNDO VAGÃO DE PRIMEIRA CLASSE.”

Telégrafo de duas agulhas de Cooke-Wheatstone da Great Western Railway, modelo de 1837.
Telégrafo de duas agulhas de Cooke-Wheatstone da Great Western Railway, modelo de 1837.

Havia um detalhe técnico curioso: o telégrafo de duas agulhas de Cooke e Wheatstone não conseguia transmitir as letras J, Q e Z.

O operador, com rapidez de raciocínio, teve que soletrar “Quaker” como “K-W-A-K-E-R”.

A mensagem atravessou os fios na velocidade da luz, superando em muito a locomotiva a vapor.

A perseguição nas ruas de Londres

O caso foi tão épico, que a busca pelo assassino Tawell consta nos registros históricos da BTPBritish Transport Police — que seria a atual polícia ferroviária britânica.

Na estação de Paddington, a mensagem foi entregue ao Sargento William Williams.

Com frieza profissional, ele colocou um sobretudo civil por cima do uniforme policial e posicionou-se na plataforma para receber o trem.

Quando Tawell desembarcou, o sargento o seguiu discretamente.

Tawell embarcou em um ônibus na New Road — e o Sargento Williams sentou no banco do cobrador.

Por conta disso, Tawell pensou que o policial era de fato o cobrador e, ao desembarcar na Prince’s Street, entregou-lhe tranquilamente seu bilhete de passagem.

Williams seguiu Tawell por uma doceria na Cornhill, depois para a Jerusalem Coffee House e, finalmente, até sua hospedaria em Scott’s Yard.

No dia seguinte, Tawell foi preso no café onde havia passado a noite pelos agentes da polícia metropolitana — que tinham jurisdição sobre as ruas de Londres.

Segundo registro do Guinness World Records, John Tawell é o primeiro criminoso preso como resultado de telecomunicações na história

O julgamento: a defesa das sementes de maçã

O julgamento de Tawell, realizado em março de 1845 no Aylesbury County Hall, foi uma sensação pública.

A defesa, liderada pelo habilidoso advogado Sir Fitzroy Kelly, apresentou uma tese inusitada: Sarah Hart teria morrido após ingerir sementes de maçã em excesso — que de fato contêm traços de cianeto — ou ácido prússico.

A argumentação rendeu ao advogado o apelido permanente de “Apple-pip Kelly” (algo como “Kelly das Sementes de Maçã”) — e diz-se que a venda de maçãs na Inglaterra caiu consideravelmente nos meses seguintes ao julgamento.

A tese, porém, não resistiu à ciência forense.

A necrópsia do corpo da vítima havia revelado que a grande quantidade de cianeto em seu estômago era compatível com envenenamento; e por isso não poderia ter sido causada por fontes naturais, como as sementes de maçãs.

O júri deliberou por apenas meia hora antes de devolver um veredicto de culpado.

O julgamento de John Tawell pelo assassinato de Sara Hart.
O julgamento de John Tawell pelo assassinato de Sara Hart.

Tawell foi enforcado em público por William Calcraft às 8h da manhã do dia 28 de março de 1845, nas forcas erguidas em frente ao County Hall no Market Square, em Aylesbury.

Uma multidão estimada em 10.000 pessoas acompanhou a execução.

O impacto jurídico e social

Para o público da época, o telégrafo deixou de ser uma curiosidade científica e passou a ser visto como uma força da ordem.

O jornal The Times declarou: “Não fosse pela eficiente ajuda do telégrafo elétrico, tanto em Slough quanto em Paddington, a maior dificuldade, bem como demora, teria ocorrido na apreensão de Tawell.”

A repercussão foi tamanha que os dois instrumentos telegráficos utilizados no caso — tanto o de Slough quanto o de Paddington — foram doados pelos fabricantes, Reid Brothers, ao Museu de Ciências de Londres em 1876, onde são preservados até hoje.

O caso também foi significativo como o primeiro homicídio documentado em que o criminoso tentou fugir utilizando uma ferrovia — e um dos primeiros casos de uso deliberado de ácido prússico (cianeto) como veneno em homicídio.

Lições de tecnologia e conectividade para hoje

Como profissionais de tecnologia e produtividade, o caso Tawell nos ensina algo fundamental: a conectividade muda as regras do jogo — sempre.

  • Redução de latência: o crime perdeu para a baixa latência da comunicação elétrica. A informação chegou antes do criminoso.
  • O nascimento do monitoramento: aqui nasceu o conceito moderno de que não importa quão longe você vá, seus dados — ou sua descrição — podem chegar antes de você.
  • Direito e inovação: foi um dos primeiros casos em que uma prova tecnológica — a comunicação por pulsos elétricos — foi aceita como base fundamental para uma investigação e condenação criminal.
  • Identidade vs. anonimato: Tawell acreditou que a metrópole o tornaria invisível. O telégrafo demonstrou que a identidade pode preceder fisicamente o próprio indivíduo.


John Tawell foi o primeiro criminoso da história a ser “preso por um fio” — e um dos primeiros casos documentados de captura de delinquente com auxílio de tecnologia.

Hoje, em um mundo de vigilância digital, câmeras com reconhecimento facial e rastreamento por IA, vivemos o ápice da evolução desse mesmo conceito que nasceu nos trilhos da Great Western Railway, em uma fria noite de janeiro de 1845.

O fio de cobre virou fibra óptica.

As agulhas magnéticas viraram algoritmos.

Mas a lógica permanece a mesma: a informação sempre pode chegar antes do fugitivo. 


Este artigo faz parte da série “História da Tecnologia” do blog Tecnologia & Inovação. Você tem algum caso histórico de tecnologia e crime que gostaria de ver coberto aqui? Conta nos comentários! E talvez você gostará da leitura abaixo:

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